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na Rússia
 
Angola

Canções, poemas e danças da guerra e da reconciliação

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A importância política das artes é ainda
mais patente no continente vizinho

Entrevista com o Embaixador da República de Angola na Rússia, publicada na Revista russa “Soobchenie” em dezembro de 2004

Continuando a abordagem do tema de guerra e arte militar, iniciada no livro de Agosto da nossa Revista, hoje, dedicamos estas páginas à história da recentemente terminada guerra civil em Angola, que durou mais de um quarto de século. Os antigos inimigos intransigentes do poder legítimo estão socialmente reintegrados. O que ajudou o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) a vencer nesta luta? Como é que tornou-se possível a Reconciliação Nacional? Com estas perguntas dirigimo-nos a um Herói da guerra civil, perito de reconhecimento militar, General Roberto Leal Ramos Monteiro que, até hoje, no alto posto de Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República de Angola na Rússia, conservou o seu nome de guerra “Ngongo”. DANÇA GLORIFICANDO O PRESIDENTE

Igor Sid: – Se falarmos do dia-a-dia da guerra, como é que foi ocupado o tempo livre dos combatentes do Exército Angolanos na etapa da guerra de libertação nacional e, mais tarde, no período da consolidação da sociedade já no país independente?

Embaixador da República de Angola na FR: – Na época da guerra de libertação nacional uma das grandes preocupações do MPLA era a alfabetização da população. Os guerrilheiros, combatentes da libertação nacional, eram analfabetos. Portanto, nos tempos livres das operações de guerra, da organização das bases na mata ou da preparação combativa, eram dadas as aulas de alfabetização. Mas, também houve tempo de lazer e devíamos organizar a ocupação dos guerrilheiros. O tempo mais próprio para o lazer era quando caía a noite.

Os momentos mais lindos eram os da Lua Cheia. Havia encontros com a população, que normalmente estava muito distante, aquilo a que chamava a “fogueira do guerrilheiro”, faziam-se as danças à volta da fogueira... Eu estive mais tempo no Leste de Angola. Aí havia danças tradicionais – o “macopo”, uma dança à volta da fogueira, “tchijanguila”... Eram danças de incentivarem a luta de libertação, glorificarem o Presidente Agostinho Neto, enaltecerem a grande causa da libertação nacional.

– Uma dança glorificando o líder, o presidente do país, é uma forma de expressão política invulgar para a Rússia, assim com para a Europa, de modo geral! As canções da época de guerra também tiveram o seu conteúdo político?

– Durante a preparação combativa e voltando das operações, os soldados sempre deslocavam-se a marchar e cantar, enaltecendo o povo, enaltecendo o presidente. Não era em português (língua dos colonizadores), mas, em línguas nacionais, que os guerrilheiros cantavam as suas canções, enaltecendo a independência, a cultura nacional, os valores nacionais...

Ainda na época da guerra pela independência criavam-se conjuntos musicais, mas, com instrumentos tradicionais. Na independência, no Exército regular, já começaram a tocar viola, tambor. Houve bandas de música que à noite tocavam para alegrar os quartéis, as bases. Eram as Direcções Políticas da Brigada, do Batalhão, que adquiriam os instrumentos. Na organização do lazer o papel principal desempenhava o comissário político. Os comissários eram responsáveis pela mobilização política, pela educação do pessoal. Era o comissário político que organizava os convívios a volta da fogueira.

A música jogo um papel muito importante. Os textos das canções que mobilizavam para a luta eram gravados por cantores famosos. Evidentemente, eram aproveitadas todas as oportunidades para fazer a sua gravação, copiar as palavras destas canções. Foi isso que contribuiu para a formação daquilo a que nós chamamos a “unidade do Exército e do Povo”. 

– Que outras artes eram aproveitadas nas FAPLA (FAA)?

– Na independência, nos quartéis onde havia luz, à noite passavam-se filmes soviéticos e cubanos. Principalmente, eram filmes sobre a guerra. Mesmo em russo, eram compreensíveis sem a tradução. Pessoalmente, quando fiz o curso de preparação militar na URSS, vi muitos filmes no Centro de Instrução, em Perevalnoie, na Crimeia. Em particular, o filme heróico “Como se tempera o aço”, de que nunca me esqueci, mais um outro “Tchapaiev”, sobre a guerra civil na Rússia...

Como estávamos na guerra, mostrávamos estes filmes sobre a guerra, sobre os combates.

Os comissários políticos, para mostrar os grandes valores nacionais, deviam mostrar estes filmes. Falava-se da luta da União Soviética, de Cuba e de outros países contra o imperialismo, contra o nazismo. Quer dizer, isto era para mostrar que havia outros povos que tiveram que lutar para serem felizes, para obterem a sua independência total.

– Uma pergunta sobre a força espiritual do combatente... O que ajudou o MPLA a vencer nesta luta?

– Em primeiro, a ideologia. A ideologia do MPLA desempenhou um papel muito importante. Sobretudo, o valor da unidade. Ideologicamente era muito importante mostrar o país como um todo de Cabinda ao Cunene, explicar a um soldado, digamos tchokwe, que não era bastante lutar só pela terra onde habita o povo tchokwe, que a independência só poderia ser obtida na luta pelo país como um todo e que, além do mais, o povo devia estar unido na luta contra o inimigo que era o colonialismo.

O princípio do internacionalismo, até hoje foi, é fundamental para a soberania do nosso país. Sem que houvesse entendimento deste princípio, era difícil explicar aos combatentes que os angolanos deviam lutar pela independência do Zimbabué, pela liberdade da Namíbia, porque deviam lutar contra o apartheid na RSA.

DA POESIA

– No trabalho propagandístico eram aproveitados os poemas, a poesia?

– No período inicial da luta, o povo angolano, como eu já disse anteriormente, na sua maioria era analfabeto. Por isso, a poesia teve grande influência somente sobre a juventude urbana. Foi nas cidades que, no início da década 50, começaram a aparecer as antologias de poesia, pequenos livros de poemas. A poesia, sem dúvida, contribuiu para a formação da consciência de muitos representantes da população urbana, da pequena burguesia inclusive, que posteriormente participaram activamente na luta pela independência e integraram a liderança do MPLA. Eles já propagavam a sua visão do mundo, a sua ideologia no meio rural. Esta era uma ideologia forte, ideologia da unidade, compreensível aos camponeses, ao passo que outros partidos, liderados pela pequena burguesia rural, com a sua mentalidade camponesa defendiam os interesses regionais, tribais. Naturalmente, eles não podiam contar com um apoio tão largo como o MPLA.


“O “X” como o imperialismo”

A minha esposa que trabalhava na educação contou que, mesmo ao ensinar as crianças a ler, eram aproveitados certos métodos ideológicos. Por exemplo, na língua portuguesa há a letra “X”. Umas vezes, lê-se como “s”, outras vezes, como “ch”, outras vezes, como “z”... Pois, é como o imperialismo... Pode-se ler de maneira diferente, aparece de maneira diferente. Umas vezes, é colonialismo, outras vezes, é neocolonialismo, como o camaleão – “enxada”, “exacta”,... Assim as crianças eram ensinadas que o imperialismo é multiforme. Até havia uma canção escolar em que cantava-se que o imperialismo é como o “x”, umas vezes, é assim, outras vezes, é diferente, toma formas diferentes!”

A influência da poesia, inclusive dos poemas de Agostinho Neto (primeiro Presidente de Angola), António Jacinto e de outros grandes poetas, na época de luta pela independência nacional, foi transmitida por intelectuais junto com a alfabetização. Até hoje, esta influência é muito importante, tanto mais que em nenhum outro país dos PALOP ou mesmo de África publicam-se tantos livros como em Angola.

DA PIEDADE DOS ANTIGOS INIMIGOS

– O Governo Angolano soube acabar com a guerra civil sem derramamento de sangue e garantir a reinserção social dos antigos inimigos do poder legítimo, até sendo alguns deles integrados nas estruturas do poder de Estado e, mesmo, nas FAA. Porque é que os combatentes da UNITA não tiveram medo de represálias ao renderem-se? Como foi possível convencê-los?

– De facto, a guerra civil era travada entre irmãos, entre os povos do mesmo país. A UNITA e a FNLA, mesmo sendo movimentos tribais, eram obrigados a levar a guerra por todo o território do país, eram obrigados a realizar contactos com outras etnias para poder levar a guerra em prol de uma fronteira comum que era Angola. Eles deviam levar a guerra não somente no território tribal, mas no território nacional. De facto, a guerra civil levou à criação da Nação.


“Na guerra, quem compreende melhor os prazeres da paz é o militar”

A guerra civil em Angola foi sangrenta e durou muitos anos. Chegou a altura em que uma das partes devia empreender algo radical para resolver o problema e chegar à conciliação. O povo já estava extenuado por este conflito. Quando se registou um equilíbrio de forças entre as principais partes envolvidas no conflito, a comunidade internacional quis intervir e com ajuda das suas estruturas estabelecer a paz. A tentativa falhou e a guerra fratricida foi renovada.

Aqui, cabe dar relevo ao papel do Presidente do país, José Eduardo dos Santos. Depois da morte de Jonas Savimbi, muitos nas FAPLA estiveram dispostos a combater até ao fim. Os oposicionistas que continuavam a resistência, estavam esgotados e era muito fácil acabar com eles. Mas, José Eduardo deu ordem às tropas suspender as acções de guerra e retomar o diálogo. Então, este gesto encontrou compreensão por parte da UNITA.

Visto que a direcção do novo Exército angolano (FAA), na sua maioria, estava nas posições anteriormente adoptadas pelas FAPLA, a subordinação absoluta ao poder político, ao líder político, era coisa indiscutível. E como o Presidente, que é Comandante em Chefe, ordenou parar as acções de guerra, o Exército cumpriu esta decisão e ninguém se atreveu a carregar a situação. Os líderes da UNITA que estavam fora do país levantaram uma gritaria por todo o mundo. Entretanto, os que combatiam na mata, passando por enormes sofrimentos e que compreendiam que era muito fácil acabar com eles a qualquer momento, apreciaram devidamente este passo. Por isso, as tropas uniram-se como irmãos.

Francamente, numa guerra, qualquer que esta seja, quem compreende melhor o que é a felicidade da paz é o militar. Por isso, o entendimento foi fácil. O Memorando de Entendimento foi assinado entre os militares, foi, sim, entre os militares de dois Exércitos e não entre as forças políticas.*

Entrevista de Igor Sid

'ANGOFLASH',
Sector de Imprensa na Embaixada,
04.04.2005